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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Monitoria Escolar


Em cada escola existem agentes que possibilitam um melhor trabalho junto aos nossos alunos e professores.
Sem dúvidas a Monitoria Escolar envolve muitos destes agentes.
Na Rede Adventista para o Mato Grosso elaboramos este material, que não tem um fim em si mesmo, e  nem abrange as realidades de cada espaço educativo, entretanto pode contribuir para a formação, orientação daqueles que exercem a função de monitor em escolas.
Assim, espero que seja útil o conteúdo aqui contido.

Até a próxima!!!

Nádia Teixeira da Silveira (março de 2011) atua na Coordenação Pedagógica Geral da Rede Adventista para o estado do Mato Grosso - É formada em Pedagogia, com pós-graduação em Psicopedagogia, Educação Especial, Docência para o Ensino Superior e mestranda em Educação pela UFMT - nadiacac@hotmail.com


Apresentação


Todo e qualquer indivíduo que se propõe a atuar profissionalmente numa escola torna-se consequentemente um educador. Dele se espera apresentação pessoal, posturas, ações, entre outros, que o habilite em sua função.

A Educação Adventista busca reinteirar no homem o propósito do criador, por isso:

Concebe-se o homem como um ser inteligente (em permanente mudança e capaz de aperfeiçoar-se), livre (com capacidade de autonomia dentro de um marco de ação), social (que vive em sociedade) e dotado de espiritualidade (transcedente e em contínuo aprimoramento). (Pedagogia Adventista, 2009, p. 32)
Enquanto educadores há necessidade de um olhar que compreenda o outro, que perceba sua trajetória de vida, que enxergue além do que se pode ver no exterior. Que entenda que existe um ser completo. Isso se faz imprescindível...

A fim de compreendermos o que se acha envolvido na obra da educação, necessitamos considerar tanto a natureza do homem como o propósito de Deus ao criá-lo. Precisamos também considerar a mudança na condição do homem em virtude da entrada do bem e do mal, e o plano de Deus para ainda cumprir Seu glorioso propósito na educação da raça humana (WHITE, Educação, p. 14)
Realizar nossa função da melhor maneira requer estudo, vivência, prática. Nem sempre é possível iniciar uma trajetória profissional sem conhecimento prévio da função a ser desenvolvida. O dia a dia nos envolve de tal forma com as urgências que pode ocorrer a perca de foco nas ações. Um estudo de cada função que compõe o espaço escolar pode colaborar para uma ação mais significativa e precisa, que realmente atenda o que a escola, os alunos precisam.

A dimensão escolar é um espaço propício para que profissionais se desenvolvam para atender adequadamente nossos alunos, entretanto, muito tempo é gasto ao esperar que as vivências proporcionem o crescimento ao educador, e quase nunca podemos prorrogar o tempo para um trabalho mais eficaz devido sua urgência inicial. Buscando preparar melhor o profissional que atenderá nossos alunos na monitoria escolar, elaboramos este material que é regido de acordo com o Regimento Escolar, bem como o Projeto Político Pedagógico da Rede Educacional Adventista no Estado do Mato Grosso, focando ações que o monitor deve realizar na escola, seus direitos, deveres, e comentários sobre algumas ações.

Sabemos que este material não encerra todas as ações, pois a escola é dinâmica e exige adaptações constantes para melhor acompanhar nosso aluno e todos que usufruem da mesma.

Contudo, todos aqueles que adentrarem em nossas escolas para a função de monitor escolar, terão um suporte de premissas que auxiliarão nas ações desta função, sendo o monitor, nosso também educador.


Ações do dia a dia

Para início de conversa, consideremos as atribuições dos Coordenadores Disciplinares e Monitores. Muitas das ações se fundem, pois a escola é dinâmica. Nas escolas que não possuem o Coordenador Disciplinar, muitas ações são de incumbência da Monitoria. Os comentários necessários encontram-se em itálico:

Atribuições da Coordenação Disciplinar

1. Orientar os monitores no cuidado com os alunos para que estejam em sala nos horários de aula, aguardando o professor sentado e em silêncio;

Os alunos devem receber as orientações de que devem estar dentro da sala nos horários de aula, se ausentando das mesmas apenas com a autorização do professor.

2. Coibir qualquer ação agressiva ou discriminatória;

3. Propiciar aos alunos o desenvolvimento do senso de respeito mútuo e cordialidade;

4. Encaminhar o aluno à Orientação Educacional quando não conseguirem resolver o problema ou mesmo for além de sua competência;

5. Estar em plena sintonia com os demais setores e cooperar nas atividades de cada um de acordo com a necessidade;

6. Ficar atento ao acesso e uso correto dos sanitários masculino e feminino, zelando para que não haja desperdício de água, sabonete, papel higiênico e toalhas, promovendo a conscientização dos alunos;

7. Manter a disciplina nos pátios, corredores, e nas salas de aula durante a ausência do professor com a monitoria;

8. Manter em alerta a todo e qualquer perigo que se ofereça aos alunos por pessoas estranhas ou pelos colegas;

9. Monitorar as atividades discentes desde o momento da entrada. Deverão observar e zelar para que os alunos estejam devidamente uniformizados, movimentem-se com segurança nos pátios e espaços internos, brinquem de forma amistosa e segura nos recreios, entrada e saída;

10. Monitorar todas as atividades dos alunos através da monitoria, não devendo restringir a atenção a um único aluno ou grupo por muito tempo;

11. Não permitir brincadeiras, jogos e ou atividades que estimulem a agressividade, violência, desrespeito ou todos os tipos de preconceitos. Tais atitudes devem ser consideradas pelo monitor como falta grave, e os envolvidos encaminhados imediatamente à Coordenação disciplinar e/ou Orientação Educacional;

12. O Coordenador Disciplinar deverá demonstrar amizade, cordialidade, gentileza e autoridade no trato com os alunos, pais e visitantes.



Atribuições da Monitoria

1. Acompanhar o início e o término das aulas mantendo a ordem nos horários de troca de professores;

O acompanhamento sistemático das aulas, diminui a indisciplina, prevenindo saídas da sala de aula em momento inoportuno. Verificar se ainda há sala sem professor e sanar o problema é mais uma forma de prevenção indisciplinar.

2. Assessorar os professores, providenciando material didático e pedagógico;

Junto à Coordenação Pedagógica, disponibilizar um cronograma de uso dos recursos disponíveis na escola, considerando horário da aula e reserva do professor. De acordo com a reserva do professor, preparar os recursos para uso na aula.

3. Auxiliar na realização de comemorações escolares;

Atentar para as necessidades das comemorações e providenciar o que for preciso.

4. Conhecer a Linha Pedagógica Adventista e participar da elaboração, execução e avaliação da Proposta Pedagógica;

Solicitar uma cópia da Proposta Pedagógica da Escola e do Regimento para leitura.

5. Contribuir para a preservação do patrimônio da unidade escolar, comunicando irregularidades constatadas;

Manter uma escola em ordem, sempre comunicando o que se encontra fora do padrão é tarefa valiosa, pois demonstra organização e cuidado.

6. Controlar os horários de entrada e saída dos educandos, permanecendo nas imediações dos portões, para prevenir acidentes e irregularidades;

7. Encaminhar ao setor responsável os educandos retardatários;

O monitor receberá orientações de como proceder, considerando que cada escola possui uma realidade. Há escolas em que o monitor realizará os procedimentos com os alunos, ligando e comunicando os responsáveis, procedendo algumas vezes com a advertência junto aos retardatários. Onde há Coordenador Disciplinar, o mesmo norteará algumas das ações do monitor.

8. Encaminhar ao setor competente da unidade escolar os educandos que apresentarem problemas, para que recebam a devida orientação ou atendimento;

Neste item, também precisará avaliar a realidade da escola. As fichas de acompanhamento, ou de advertência devem servir ao professor, que esgotada as tentativas de resolver problemas com o aluno, o encaminhará ao monitor, que por sua vez atenderá o aluno, trabalhando especialmente a conscientização dos problemas, refletindo sobre o que pode ser diferente na ação do educando para superação do fato em questão. Após sua tentativa, não havendo resolução, se buscará o setor competente, que poderá ser: Coordenação Disciplinar, Orientação Educacional (procurar em último caso, quando se referir a questão disciplinar), Direção Escolar.

9. Participar da avaliação da unidade escolar com vistas a melhoria do processo educacional;

10. Percorrer as diversas dependências da unidade escolar, observando os educandos para detectar irregularidades, necessidades de orientação e auxílio;

11. Prestar assistência aos educandos em casos de emergência;

Em casos de acidentes dentro da escola, o monitor atenderá o aluno, receberá informações da direção de como comunicar os responsáveis, e o fará via telefone. O mesmo poderá junto à secretaria da escola, entrar em contato com o seguro acidente escolar e informar aos pais os devidos procedimentos para atendimento.

12. Verificar as condições de higiene e ordem das salas, antes do início das aulas ou após o seu término;

Após verificação, caso a sala não esteja pronta para receber os aluno, comunicar ao serviço gerais para que organizem o que for preciso. Quando necessário, auxiliar na organização das carteiras.

13. Verificar o uso devido do uniforme escolar;

O uniforme é parte importante na escola, ele padroniza e diminui possíveis comparações. O mesmo deve ser exigido. O não uso sujeita o aluno à advertência.

14. Zelar pela observância dos princípios filosóficos da unidade escolar;

15. Acompanhar as agendas dos alunos quinzenalmente e comunicar aos responsáveis e orientador educacional possíveis problemas (quando não houver comunicar o coordenador pedagógico).

Verificar na escola como será o acompanhamento, se usará carimbos, como ocorrerá a discriminação no sistema de secretaria quando o aluno não assinalar suas tarefas, etc.

Organizar e sistematizar uma lista com ações, como a que se apresenta acima é fácil, entretanto, a maior necessidade é de reflexão sobre a ação, num contexto de trocas entre pares, discussões, reflexões, análises de forma individual e principalmente de forma colaborativa. As mudanças são possíveis quando analisada a trajetória do grupo que compõe a escola, e quando a equipe se concentra numa perspectiva de formação continuada, com clareza de objetivos, que visam em especial a construção ou reconstrução de ações mediante discussões. A aprendizagem só ocorre quando paralelo a ela há mudança.


Para continuar nosso propósito de aprendizagem, vamos analisar e refletir sobre o texto abaixo, o mesmo transcorre sobre pontos específicos para se trabalhar com crianças da Educação Infantil ou mesmo Ensino Fundamental – Séries Inicias, o trecho é um recorte do PQD 2008 da Professora Elys Moraes.



O monitor escolar

A Monitoria possibilita a experiência do cotidiano educacional promovendo a integração com alunos e professores, a participação em diversas funções e organização no setor.

Pode-se considerar que o monitor escolar tem como prioridade auxiliar os professores em sala de aula no acompanhamento e distribuição das tarefas, bem como: orientar os alunos juntamente com a professora quanto à higiene, lazer, vestuário, medicação, refeições e repouso; conduzir as crianças ao banheiro, dar banho caso necessário, escovação de dentes, fazer uso do sanitário, acompanhar diretamente essas atividades; manter as crianças sempre limpas e com roupas e calçados adequados a todas as situações; ajudar a servir a merenda ou lanche, e dar na boca quando for o caso; executar juntamente com a professora atividades recreativas, educacionais e ocupacionais com as crianças, bem como acompanhá-las em passeios fora da escola; informar a coordenação qualquer problema de saúde com as crianças para posterior atendimento médico; manter vigilância constante sobre as crianças, prevenindo acidentes que coloquem em risco a saúde e ou a vida das mesmas; garantir que todos tenham um comportamento adequado nos horários de refeições, fazendo com que tenham uma boa alimentação, que sentem corretamente em seus lugares e comam adequadamente; comunicar a coordenação qualquer irregularidade ou ocorrência com as crianças; manter-se ocupada com atividades em sala, no horário do repouso das crianças; deixar a sala de aula em ordem, após o término das atividades do dia; participar de eventos, palestras e treinamento sempre que solicitado pela chefia; executar outras atividades similares as acima descritas, a critério do seu chefe imediato; o ocupante do cargo é responsável pela guarda e manuseio do material da escola, que é usado em sala de aula ou fora dela.

A educação infantil e mesmo o trabalho desenvolvido com crianças pequenas exige que o monitor tenha a sensibilidade de se adequar aos conteúdos diversos do universo infantil até conhecimentos de áreas especificas e atualidades, além de ser necessário que estejam comprometidos com a prática educacional, capazes de responder às demandas familiares e das crianças, assim como às questões específicas relativas aos cuidados e aprendizagens infantis. É interessante que o monitor propicie a socialização das descobertas das crianças, isso ocorre quando se organiza as situações para que as crianças compartilhem as atividades, propiciando assim uma interação social.

Considerar que as crianças são diferentes entre si, necessita de uma educação baseada em condições de aprendizagem que respeitem suas necessidades e ritmos. Essas necessidades promovem avanços naquilo que a criança é capaz de realizar com a ajuda dos outros, ou seja, no seu desenvolvimento potencial.


Uma das grandes frentes de trabalho da Monitoria, refere-se a disciplina. O próximo trecho para leitura procede também do PQD 2008 da Professora Elys Moraes.



O monitor e a indisciplina

No dicionário da língua portuguesa a palavra disciplina quer dizer ensino. Certamente a indisciplina de uma criança pode originar de alguns fatores, mas os pais podem perceber essa situação em seu início, não saber ou não conseguir dizer “não” ou “sim” na hora certa, a dificuldade em estar impondo limites, na ausência de procedimentos que gerem obediência, a indisciplina se instala.

Sobre a questão da disciplina GARCIA (2002) nos diz que:

A disciplina não pode ser trabalhada a partir de mecanismos de controle comportamental, tal fenômeno já foi superado, o que se propõe atualmente é trabalhar a indisciplina enquanto fenômeno de aprendizagem. Dessa forma o aluno considerado indisciplinado não o é somente por haver rompido com regras escolares, mas porque não está desenvolvendo suas possibilidades cognitivas atitudinais e morais.
Podemos perceber que crianças em idades diferentes apresentam diferentes comportamentos e manifestações de indisciplina. Uma criança até os sete anos tem uma atitude e reações indisciplinadas diferentes de um pré-adolescente ou de um adolescente. Dessa forma, caso essas manifestações não sejam corrigidas no momento certo o problema pode ser maior, tornando-se adultos agressivos e violentos. Precisa-se trabalhar visando não mais um tipo ideal de homem, mas trabalhar em vista do sentido da vida humana. (MEDINA, 2004 p; 27).

Somos sabedores que cuidar dos filhos não é uma tarefa muito fácil, e nem educá-los é fácil. Com o advento de diversos conceitos psicanalíticos e psicológicos, que ganharam força em meados da década de 1970, algumas famílias em sua educação familiar, deixaram questões de disciplina ausentes, como é o caso dos limites. Crianças e adolescentes que possuam um comportamento indisciplinado na escola, consideram que podem tudo a qualquer hora. Não serão disciplinados só com a educação escolar, é preciso que haja harmonia entre família e escola.

Crianças e adolescentes indisciplinados e sem limites em casa, alunos indisciplinados e sem limites na escola. Desta forma, a indisciplina nos dias atuais deve ser vista como um fenômeno interativo que ocorre no contexto de sala de aula (AMADO, 2001, p.17).

A disciplina na escola pode ser vista não apenas como repressiva, mas de forma a conduzir a criança para a sociedade, com suas responsabilidades e deveres, respeitando cada estágio da idade do aluno. Nesse sentido trabalhamos a partir de um enfoque positivo, reconhecendo que a educação dos filhos é uma tarefa difícil e complexa. Acreditamos que os pais conhecem melhor do que qualquer outra pessoa quais são as necessidades de seus filhos e que desejam o melhor para eles.

Sendo assim, a indisciplina escolar esta intimamente ligada a tudo que diz respeito ao ensino, aos objetivos, as prática e perspectivas que orientam, além dos condicionantes próprios da aula, da escola, da comunidade e do sistema. (AMADO, 2001 apud Oliveira, 2004, p. 45).



Competências, Direitos, Deveres, Proibições e Medidas

Ainda exporemos as competências, direitos, deveres, proibições e medidas referentes a função da monitoria.


Competências

1. Adotar postura ética com todos os colegas da equipe e quando for necessário, fará suas observações com quem de direito;

2. Atender ao professor sempre que solicitado para troca de idéias sobre discentes;

3. Sua postura deverá ser sempre exemplar;

4. Encaminhar alunos aos setores da unidade escolar;

5. Não adotar em hipótese alguma postura preconceituosa;

6. Não apelidar, nem aceitar ou permitir apelidos entre alunos e colegas;

7. Não fazer comentários sobre os demais colegas de trabalho perante os alunos, pais ou visitantes;

8. Não usar gíria;

9. Responderá pelo almoxarifado;

Manter organizado o almoxarifado, com controle de saídas e entradas de materiais.

10. Saber que o professor é autoridade máxima em sala de aula não desautorizando o mesmo, nem fazendo qualquer comentário publicamente, ainda que a seu julgamento o professor esteja errado.


Direitos

1. Sugerir medidas para o bom andamento da unidade escolar;

2. Opinar sobre a segurança dos alunos.


Deveres

1. Trabalhar uniformizado conforme padrão da unidade escolar;

2. Zelar pela ordem e funcionamento da unidade escolar;

3. Organizar entradas e saídas dos alunos;

4. Manter a ordem durante o recreio;

5. Zelar pela integridade dos alunos durante o recreio;

6. Zelar pelo ambiente escolar, acompanhando os responsáveis pela limpeza e organização do mesmo;

7. Conhecer o regimento escolar e proposta pedagógica da unidade escolar.


Proibições

1. Ausentar-se do setor de trabalho em horário de expediente;

2. Contato físico com alunos e colegas em local e expediente de trabalho;

3. Uso de cabelos compridos, bonés e piercings para os homens;

4. Uso de tamancos, jóias, bijuterias, penteados excêntricos, piercings e pinturas extravagantes para mulheres.


Medidas

1. Observação verbal ou por escrito quanto ao não cumprimento de seus deveres ou realização de proibições pela equipe pedagógica;

2. Encaminhamento para a equipe administrativa, a qual, em consonância com a mantenedora, tomará as devidas providências.


Considerações

Os comentários e ações aqui discriminadas servem de base para direcionar o trabalho da monitoria, contudo, as reflexões não se encerram, e muito ainda pode ser feito para o aprimoramento da função.

A base principal de qualquer função deve ser a reflexão na prática, com vista a mudança de posturas e quebra de paradigmas.

Que a cada dia possamos crescer nas trocas e realizar o melhor pela Rede de Educação Adventista no Estado, Brasil e Mundo.


Referências Bibliográficas

RIVAS, Selena Castelão.(org.) Pedagogia Adventista. Educação Adventista – Departamento de Educação. Tatuí, CPB, 2009.

WHITE, Ellen. Educação. Tatuí, CPB, 2008.

Moraes, Elys. PQD 2008. Departamento de Educação. Cuiabá, 2009.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Estilos de Aprendizagem



O Que é um Estilo de Aprendizagem?

Um Estilo de Aprendizagem é um método que uma pessoa usa para adquirir conhecimento. Cada indivíduo aprende do seu modo pessoal e único.
Um Estilo de Aprendizagem não é o que a pessoa aprende e sim o modo como ela se comporta durante o aprendizado.
Só lembrando, Estilos de Aprendizagem ajudam a explicar porque uma criança pode aprender a dizer todo alfabeto após ler um livro de alfabetização, enquanto que outras podem aprender a mesma coisa brincando com Blocos de Construção que tenham letras, e ainda outras podem aprender o mesmo cantando músicas como a Canção do ABC.
Atualmente, existem pelo menos Sete Estilos de Aprendizagem identificados:

Físico (indivíduo que usa muito a expressão corporal)

Interpessoal (indíviduo extrovertido)

Intrapessoal (indíviduo introspectivo)

Linguístico (aqueles que se expressam melhor com palavras)

Matemático (os que usam mais o pensamento/raciocínio lógico)

Musical (se interessam mais por sons e música)

Visual (exploram mais o aspecto visual das coisas)

Como São usados os Estilos de Aprendizagem?

Para exemplificar melhor, conhecendo o Estilo de Aprendizagem da criança você, ou o professor dela, estarão aptos a criarem programas educacionais que serão mais personalizados, mais motivantes e significativos no que diz respeito a eficácia e assim com resultados muito melhores.
Crianças adquirem conhecimento e absorvem o que aprenderam quando aquele assunto ou habilidade em jogo é ensinado a elas de um modo que há empatia entre a mesma e o tema abordado. Descobrir o Estilo de Aprendizagem da criança é descobrir como ensinar-lhe com mais eficiência e resultados.

Quem está usando os Estilos de Aprendizagem?

Professores tem usado o Conceito de Estilos de Aprendizagem por muitos anos. Enquanto nem todos os educadores usam o termo Estilos de Aprendizagem, muitos no campo da educação sabem que acontecem maravilhosas esperiências educacionais, quando ensinam às crianças com uma boa variedade de abordagens diferenciadas.
Eis porque existem tantas Canções, Jogos, Quebra-cabeças, Atividades e Livros disponíveis para ajudar a ensinar quase qualquer coisa. Não importa como a criança aprende melhor, existirão sempre recursos disponíveis para ajudar você a ensinar-lhe do modo mais adequado a ela.

Qual é a origem do conceito Estilos de Aprendizagem ?

Muitas teorias tem sido desenvolvidas nos campos da Educação e Psicologia para explicar como as pessoas pensam e aprendem. Um desses teóricos é o Dr. Howard Gardner, Psicólogo da Universidade de Harvard.
Em seu livro publicado em 1983, "Frames of Mind: The Theory of Multiples Intelligences", ele especula que os indivíduos não possuem uma inteligência fixa, mas pelo menos sete diferentes modos de aprender que podem ser desenvolvidos ao mesmo tempo.

Fisico:
As Pessoas com estas características são os inquietos, os fuçadores, os desmontadores de equipamentos e brinquedos, os que querem saber como funciona e ver por dentro, os que não conseguem ficar sossegados em seu lugar.
Eles são pessoas que não conseguem ficar sentadas por muito tempo. Eles simplesmente raciocinam melhor quando seus corpos estão em movimento. Eles interagem melhor com o mundo através do contato manual e corporal. Os "Aprendizes" físicos adoram esportes, inventar, construir e dançar.
Quando estão aprendendo ou adquirindo capacitação acadêmica, essas pessoas se beneficiarão mais com atividades de expressão corporal, manipulando e tocando objetos, realizando exercícios, etc.
Eis alguns exemplos de profissinais com estas características; Dançarinos, Atletas Profissionais, Cirurgiões, Mecânicos, Construtores, e todos os tipos de Artifícies em todas as áreas.

Resumo:

. Aprendem mais tocando e manipulando objetos

. Se sentem melhor aprendendo em movimento

. Tem boa coordenação motora e habilidade física

. Se ficam parados por longos períodos não pensam direito

Dicas para ensiná-los melhor:

. Realize aulas práticas com montagens e construções de objetos e simulações

. Inclua aulas virtuais em computadores

. Alterne seções teóricas e práticas durante a aula.

Intrapessoal:
São as pessoas solitárias, aquelas que marcham conforme o ritmo da sua própria conveniência, e podem ser descritas pelos outros como tímidas. Estas pessoas não são anti-sociais, eles apenas pensam melhor quando são deixados à vontade para ditarem seu próprio ritmo.
Elas se relacionam melhor com o mundo sob uma ótica independente e através da auto-reflexão. Atividades que pessoas assim gostam e são bem sucedidas inclui escrever, pesquisar e explorar a Internet.
Quando estão aprendendo ou adquirindo capacitação na escola, os aprendizes Intrapessoais obterão melhores resultados com atividades onde possam trabalhar sozinhos, projetos independentes, e trabalhos de pesquisa.
Alguns exemplos de profissões para pessoas com este perfil são Psicólogos, Escritores, Filósofos, Programadores de Computador, etc.

Resumo:

. Rendem mais trabalhando sozinhos

. São persistentes e tentam várias alternativas para resolver problemas

. Tem um raciocínio lógico muito apurado e são reflexivos

Dicas para ensiná-los melhor:

. Realize projetos independentes com eles

. São pesquisadores natos, use e abuse de trabalhos de pesquisa

. Trabalhos em grupo só em último caso, preferem seguir seu próprio caminho.

Interpessoal:
São as pessoas conhecidas com os ajudantes de plantão, os assistentes comunitários, os autênticos carregadores da equipe. Elas conseguem o melhor de si quando podem defender suas idéias e podem ajudar os amigos a resolverem problemas.
Elas se relacionam melhor com o mundo através de suas interações com os outros e um entendimento de como as pessoas trabalham em grupo. As atividades onde terão melhores resultados são equipes esportivas, grupos de discussões e organização de eventos.
Quando estão assimilando novas informações ou desenvolvendo sua capacitação na escola, elas obterão melhor desempenho com Jogos em Equipe, Trabalhos de Pesquisa em Grupo, ou trabalhando em pequenas equipes.
Alguns exemplos de profissionais com este perfil são Conselheiros, Advogados, Professores, Políticos, Treinadores, Executivos, e Artistas tai como; Atores, Comediantes, etc.

Resumo:

. Rendem mais trabalhando em grupos

. Gostam de ajudar, ouvir e dar opiniões. Adoram viver rodeados de gente

. São organizadores natos de eventos e festas

Dicas para ensiná-los melhor:

. Realize projetos em grupos com eles

. São excelentes ouvintes

. Organize trabalhos onde possam lidar com o público, debates, entrevistas.

Linguístico ou Verbal:
São as pessoas conhecidas como os comedores de livros, os artesões das palavras, e pessoas que sempre sabem o vão falar. Estas pessoas são aquelas que causam impacto quando se expressam através de palavras faladas ou escritas.
Elas se relacionam melhor com o meio através da linguagem. Estes indivíduos podem obter melhores resultados com atividades que incluam o uso da palavra falada, escrita de Poemas e leitura Literária.
Quando estão aprendendo ou construindo sua capacitação profissional, elas se beneficiarão mais como Contadores de Histórias, Conferencistas, na condução de Entrevistas, Leitura e Escrita.
Algumas profissões de pessoas com essa natureza são Autores de Peças de Teatro ou Novelas, Jornalistas, Conferencistas, Redatores de Publicidade, etc.

Resumo:

. Adoram ler e contar histórias

. Tem uma excelente memória e capacidade de organizar tramas literárias

. Tem boa fluência verbal e facilidade para se expressar

Dicas para ensiná-los melhor:

. Realize projetos literários com eles, vão adorar

. Realize concursos para redação de textos publicitários

. Realize debates de temas polêmicos, criação de uma peça de teatro, etc

Matemático:
São as pessoas conhecidas como os gênios matemáticos, os apaixonados por jogos, e os seguidores e defensores das teorias Científicas. Isto não quer dizer que para concordar com alguma coisa esta precise ser provada cientificamente, isto significa apenas que eles pensam de acordo com o padrão lógico.
Sua relação com o mundo é melhor através do Raciocínio, Números, Padrões e Sequências. As atividades que mlehor de indentificam com eles incluem contagem e classificação de objetos, criação de tábuas cronológicas e tabelas, e solução de problemas complexos.
No desenvolvimento de sua capacitação na escola, elas obterão melhor desempenho com Experiências Científicas, Acompanhamento passo-a-passo de processos, e usando cálculos matemáticos.
Alguns exemplos de profissionais com este perfil são Cientistas, Matemáticos, Advogados, Contadores, etc.

Resumo:

. Adoram tudo que esteja relacionado com números

. Gostam de jogos de todos os tipos

. Tem um raciocínio lógico muito apurado

. Conseguem assimilar fácilmente a realização de processos complexos

Dicas para ensiná-los melhor:

. Ao ensiná-los é preciso que os assuntos tratados possam ser comprovados

. São relutantes em aceitar as leis da tradição. Sem provas, nada feito

. Realize projetos onde possam organizar e classificar coisas e objetos

. Realize projetos de pesquisas cientifícas ou comportamentais

Musical:
São aquelas pessoas que vivem cantando ou entoando algum som mesmo com a boca fechada, os cantores e aqueles descritos com tendo um ouvido musical. Vêem sons em tudo. Eles podem não serem os melhores cantores ou músicos, mas eles tem uma habilidade natural para interagir e entender os sons, musicais ou não.
Sua relação com o mundo é através dos sons e ritmos sonoros. As atividades que podem ser mais proveitosas para elas são ouvir músicas, tocar instrumentos, interpretar sons, e cantar.
Quando estão aprendendo ou adquirindo capacitação acadêmica, essas pessoas se beneficiarão mais escrevendo letras e canções para músicas, tocando instrumentos para acompanhar seus trabalhos ou de outros, ou desenvolvendo projetos de multimídia.
Eis alguns exemplos de profissinais que aplicam seu Estilo Musical no trabalho são Cantores, Músicos, Maestros, Engenheiros de Sons, Produtores Musicais, Web Designers, etc.

Resumo:

. Adoram tudo que esteja relacionado com sons e músicas

. Gostam de cantar, interpretar e escrever músicas

. Tem um ouvido muito sensível para interpretar todos tipos de sons

Dicas para ensiná-los melhor:

. Realize projetos para criação teatros musicais

. Realize projetos onde possam escrever letras para músicas já existentes

. Realize projetos de pesquisa, biografia e bibliografia musicais

. Realize projetos para criação de trabalhos em multimídia

Visual:
Estas pessoas são os modernos Picassos e Renoirs, os grafiteiros e rabiscadores, e indivíduos que tem um talento natural para as cores e para harmonizar ambientes. Os indivíduos Visuais parecem ter um senso artístico que faz com que tudo criem pareça agradável aos olhos.
Sua relação com o mundo é através de pinturas e imagens. As atividades que podem ser mais proveitosas para elas incluem pintura, escultura, e a criação de artes gráficas.
Quando estão aprendendo ou adquirindo capacitação acadêmica, essas pessoas se beneficiarão mais com desenho e criação de diagramas inclusive gráficos, leitura cartográfica, criação de mapas, ou realizando demonstrações
Eis alguns exemplos de profissinais que aplicam seu Estilo Visual no trabalho são Arquitetos, Pilotos, Marinheiros, Pintores e Escultores, Web Designers, Criadores de Anúncios Visuais, etc.

Resumo:

. Tem uma grande facilidade para organizar com harmonia ambientes

. Obras de arte, pinturas, gravuras, cores, seu mundo é quase só isso

. Para aprender precisam ver o trabalho sendo realizado

. São artistas plásticos em potencial

Dicas para ensiná-los melhor:

. Realize projetos onde possam criar cenários para peças de teatro

. Faça um projeto para a criação de um Site para a turma ou escola

. Peça para que criem apresentações multimídia dos trabalhos da escola

. Realize projetos com interpretação de mapas, diagramas e obras de arte

. Use e abuse de ilustrações, gráficos, slides, filmes, etc, em suas aulas

Meu Filho pode ter mais de um Estilo de Aprendizagem?

Sim. Cada indivíduo está apto a usar todos estes diferentes métodos durante seu aprendizado, portanto todas as pessoas são capazes de usar todos os Estilos de Aprendizagem. No entanto, o mais comum é que a pessoa tenha um ou dois Estilos que trabalham melhor para ela quando estão aprendendo. Assim, há o Estilo primário (o dominante) e o secundário.

Se meu Filho é particularmente forte em uma área, isto que dizer que não posso ou não devo tentar um outro Estilo?

Para um resultado mais eficiente durante seu aprendizado, é recomendado uma abordagem em cima do Estilo de Aprendizagem predominante. Mesmo assim, as crianças deverão ter diferentes oportunidades para usar o Estilo dominante, como também para trabalhar no desenvolvimento de outros Estilos.

Se meu Filho é particularmente fraco em um Estilo isto quer dizer que devo ajudá-lo a fortalecer este Estilo?

Em primeiro lugar, ser "fraco" em um Estilo, não significa que a criança não tem a capacidade de aprender. Isto simplesmente quer dizer que algumas abordagens não serão muito eficientes para que a criança de adapte a este tópico, matéria, ou capacitação a qual ela está sendo submetida. Assim, a resposta a esta questão é a mesma da anterior. A criança deve ter diversas e diferentes oportunidades de exercitar o Estilo no qual ela é mais forte, como também ir trabalhando aos poucos em outros Estilos. Não há problema algum em tentar melhorar seu Estilo de Aprendizagem; no entanto para melhores resultados durante seu aprendizado e desenvolvimento pessoal, é recomendável uma atuação mais efetiva e direta em cima do Estilo predominante nela.

Pessoal... infelizmente esqueci de copiar o link deste texto... se ele pertence a você me informe, que exporei os devidos créditos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Métodos de alfabetização e consciência fonológica: o tratamento de regras de variação e mudança ( a sair na revista SCRIPTA da PUC/MG)

A Dra Stella Bortoni - UnB, tem sido uma grande colaboradora do nosso BLOG, já que permitiu reproduzirmos aqui conteúdos de seu site, lá você encontrará o artigo completo... como tive problema de configurá-lo, tive que fazer recortes do mesmo.
Aproveitem a leitura deste artigo de sua autoria...





O foco deste artigo é o desenvolvimento da consciência fonológica como requisito para qualquer método de alfabetização. Argumenta-se em favor da inclusão de regras variáveis fonológicas, inclusive as que se interseccionam com a morfossintaxe, como elemento importante nesse processo de conscientização lingüística. Examinam-se os altos índices de analfabetismo funcional no Brasil e os resultados mais recentes do SAEB referentes à compreensão da leitura. São analisados, em textos de alfabetizandos, marcas de oralidade, especialmente regras sociolingüísticas de variação e mudança produtivas no seu grupo social, bem como problemas que se pode atribuir ao caráter arbitrário de certas convenções ortográficas.
Palavras-chave: Consciência fonológica; Métodos de alfabetização; Marcas da oralidade na escrita de alfabetizandos; Convenções ortográficas; Fenômenos em processo de variação e mudança no português brasileiro.

As estatísticas referentes aos índices de alfabetismo no Brasil revelam um dos mais graves problemas sociais no país, não obstante esforços empreendidos pelo governo ou pela sociedade, principalmente a partir do século XX, com o crescimento da população residente em áreas urbanas. A preocupação com a solução desse problema está expressa na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, aprovada em 1996. Essa lei, que é a matriz da política educacional brasileira, estabeleceu em seu artigo 32 que o ensino fundamental, obrigatório e gratuito, que hoje em dia vem sendo ampliado de 8 para 9 anos nos sistemas estaduais de ensino, volta-se para o desenvolvimento da capacidade de aprender por meio do pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo. Consiste pois em uma salvaguarda legal de que todos os brasileiros sejam introduzidos na cultura de letramento, à qual têm acesso, historicamente, parcelas restritas da população brasileira.

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Em 1958 a UNESCO definia como analfabeto um indivíduo que não consegue ler ou escrever algo simples. Duas décadas depois substituiu esse conceito pelo de analfabeto funcional, que é um individuo que, mesmo sabendo ler e escrever frases simples, não possui as habilidades necessárias para satisfazer as demandas do seu dia-a-dia e se desenvolver pessoal e profissionalmente. Pesquisas recentes conduzidas pelo Instituto Paulo Montenegro trabalham com esse conceito (ver www.ipm.org.br e Ribeiro, 2004).

O Quinto Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, divulgado em setembro de 2005, por esse instituto, mostrou que só 26% dos brasileiros na faixa de 15 a 64 anos de idade são plenamente alfabetizados. Desses, 53% são mulheres, 47% são homens e 70% , jovens de até 34 anos.

Com o crescimento quantitativo das matrículas no ensino fundamental verificado nas últimas décadas, era de se esperar que, em poucos anos, o percentual de brasileiros plenamente alfabetizados chegaria aos níveis do que se verifica em países industrializados. Mas isso não vem ocorrendo porque a escola brasileira não tem propiciado a um grande contingente de seus alunos efetivo acesso à cultura letrada. Desde 1990 o Ministério da Educação vem conduzindo testes nacionais de compreensão de leitura e habilidades matemáticas com alunos na 4ª e na 8ª séries do ensino fundamental e na 3ª série do ensino médio, identificados pela sigla SAEB: Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica.

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As deficiências no sistema escolar, que provocam repetências e evasões, são diretamente proporcionais ao índice de desenvolvimento humano das regiões. Nas regiões brasileiras onde esse índice é mais baixo, como as regiões Nordeste e Norte, são igualmente mais baixos os resultados do SAEB, tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática. Já sabemos também que dois grupos de alunos no ensino fundamental obtêm os piores resultados no teste: alunos cujos pais não são alfabetizados e alunos com defasagem idade/série.

Pesquisadores de diversas disciplinas na área de ciências humanas têm conduzido pesquisas aplicadas que possam contribuir na solução do grave problema do analfabetismo no Brasil. Entre elas a Lingüística tem trazido uma significativa contribuição para o tratamento da leitura e da escrita no início da escolarização, mais propriamente do processo de alfabetização (cf. Abaurre-Gnerre 1984; Barbosa 1981; Cagliari 1996 e 1999; Faraco 1992; Kato 1992; Lemle 1987; Moraes 2000; Scliar-Cabral 2003; Tfouni, 1995; Kleiman e Signorini, 2000 inter alia). Ainda assim, dada a gravidade do problema, é desejável que mais pesquisadores na macro-área dos estudos da linguagem se detenham sobre esses temas, pois estamos falando de uma questão que certamente precisa merecer um tratamento multidisciplinar.

Neste artigo reflito, da perspectiva de uma sociolingüista, sobre a relação entre fala e escrita, enfocando exatamente os primeiros contatos sistemáticos dos falantes com a língua escrita, na escola.

Pesquisadores da área de alfabetização, em muitos países de escrita alfabética, argumentam enfaticamente que o reconhecimento das palavras desempenha um papel central no desenvolvimento da habilidade de leitura. Aprender a reconhecer palavras é a principal tarefa do leitor principiante e esse reconhecimento é mediado pela fonologia. Por meio da decodificação fonológica, o aprendiz traduz sons em letras, quando lê, e faz o inverso quando escreve. Reconhecem esses pesquisadores, entretanto, que tanto o processo da leitura quanto o da escrita envolvem muito mais que a compreensão do principio alfabético, que estabelece a correspondência entre grafemas e fonemas. Ler e escrever são processos complexos _ o segundo ainda mais complexo que o primeiro _ que exigem conhecimentos de natureza sintática, semântica e pragmático-cultural, que o leitor vai adquirindo à medida que amplia o seu léxico ortográfico, nos estágios subseqüentes à fase de alfabetização. Mas ressalvam que, na fase inicial da aprendizagem da leitura, a competência essencial a ser desenvolvida é a decodificação de palavras, o que por sua vez implica um processamento fonológico.

As teorias que partem dessas premissas enfatizam a consciência fonológica e o princípio alfabético e definem a primeira como o entendimento de que cada palavra _ou partes da palavra_ é constituída de um ou mais fonemas. Para a fonoaudióloga Lílian Nascimento, rimas, aliterações, consciência sintática, silábica e fonêmica são habilidades relacionadas à consciência fonológica[2]. Na mesma linha de pensamento Alliende e Condemarín (1987 p. 46) denominam consciência lingüística “o conhecimento consciente do indivíduo dos tipos e níveis dos processos lingüísticos que caracterizam as expressões faladas”, entre os quais o de codificar foneticamente a informação lingüística. Discutindo o papel da consciência fonológica na alfabetização, Carvalho (2005) alerta para a necessidade de que os alfabetizandos percebam a dimensão sonora das palavras, que são formadas por sílabas e fonemas.

Argumenta-se na literatura especializada, no Brasil e no exterior, que a ênfase no desenvolvimento da consciência fonológica dos alfabetizandos vai-lhes permitir compreender o princípio alfabético e segmentar seqüências fonológicas e ortográficas, levando-os à identificação das palavras e, em conseqüência, à compreensão do sentido do enunciado escrito (cf. Brasil. Câmara dos Deputados, 2003) [3]. Essas premissas estão na base de métodos de alfabetização denominadas “phonics” em inglês ou “fônica” ou modelos fônicos em português, que não devem, segundo seus defensores, ser confundidos com os antigos modelos de natureza comportamentalista, cuja prática pedagógica, essencialmente associacionista, consistia em estímulos e respostas. Tampouco ser identificados com a antiga calistênica fonológica, em que as palavras eram quebradas em sílabas e os alfabetizandos levados a recitar as sílabas numa seqüência em que o núcleo silábico ia-se alterando[4] [5] .

Em alguns países, como os Estados Unidos, Inglaterra e França, a ênfase na consciência fonológica tornou-se elemento fulcral nos processos de alfabetização. Nos dois primeiros, esse movimento denominou-se “Back do Phonics” e representou uma reação aos modelos de “Whole Language”, muito difundidos na segunda metade do século passado que, por sua vez, já constituíam uma reação aos métodos comportamentalistas vigentes até então. Vejamos o que diz a educadora britânica Lesley Clark a respeito da fônica: “Ensinar a relação entre sons e letras é fundamental para desenvolver a alfabetização. Antes que uma criança possa decodificar ou codificar, usando um léxico de sons, ela tem de ser capaz de distinguir padrões sonoros e de saber o que significam conceitos como som, letra e palavra”. (Clark, 1999 p. 1, traduzido). Na Inglaterra os parâmetros da política de alfabetização, reunidos na “National Literacy Strategy” (NLS), foram desenvolvidos, ainda segundo Lesley Clark, com o objetivo precípuo de superar deficiências identificadas nos métodos anteriores, atribuídas à falta do tratamento fônico, explícito, contextualizado e progressivo. Mas a autora pondera que uma ênfase demasiada na decifração da palavra pode ser prejudicial ao processo de aprendizagem e que o ensino criativo da fônica deve estar firmemente enraizado numa experiência significativa de aprendizagem da leitura em que as palavras estão contextualizadas em textos que despertem o interesse dos aprendizes, sejam motivadores e pertençam ao seu universo cultural.

Neste capítulo estou trabalhando com os pressupostos de que a leitura e a escrita são parasitárias da fala e de que o desenvolvimento da consciência fonológica favorece a compreensão do princípio alfabético subjacente à ortografia do português e de um grande número de línguas. Isso não implica aceitar, contudo, o retorno de práticas comportamentalistas, baseadas em estímulo e resposta, no processo de alfabetização. Nem tampouco minimizar a importância do contexto na leitura das palavras, que têm de estar inseridas em textos significativos e atraentes. Alinho-me com a pesquisadora do Ceale, Isabel Frade, (Magalhães, 2005 p. 8) quando diz:

No final da década de 1980 e início dos anos 1990, chegou a ser questionada a possibilidade de se fazerem livros para alfabetizar. Os educadores trabalhariam com textos diversificados, sempre nos suportes em que circulam na sociedade: bulas, embalagens, livros e revistas. Já no final da década de 1990, houve uma volta à defesa dos livros para alfabetização mais semelhantes a livros de leitura, mas que davam pouca ênfase à relação fonema-grafema. Esse modelo é comum até hoje, porém há uma tendência de os livros tentarem equilibrar o trabalho de compreensão de textos, seus usos sociais e diferentes gêneros textuais com atividades de leitura e escrita que exploram as relações fonema-grafema. [6]
A pesquisadora ressalva ainda que o professor tem que entender o porquê de cada procedimento em seu trabalho pedagógico de alfabetização.

Se tomarmos como premissa que a competência oral dos alfabetizandos lhes fornece subsídios para que possam realizar um trabalho criativo de construção de hipóteses quando deparam com a necessidade de ler e escrever, podemos argumentar que é uma grande vantagem alfabetizar crianças em sua língua materna. No caso brasileiro, a grande maioria das crianças que chega às escolas já é falante competente do português como língua materna [7]. Essa é uma situação infinitamente mais favorável à aprendizagem da escrita que a situação dos países multilíngües do terceiro mundo, como é o caso das nações lusófonas africanas. Ali, a língua da alfabetização, nas escolas, é o português, mas a maioria das crianças não o tem como língua materna e sim os diversos crioulos de base portuguesa ou uma ou mais línguas e variedades de línguas de seu grupo étnico. Têm, portanto, de simultaneamente aprender uma língua estrangeira e adquirir as habilidades de decodificá-la e codificá-la, na leitura e na escrita, sem o apoio de sua competência na língua oral.

Estamos tão acostumados com a dupla condição de língua majoritária do português no Brasil e de principal veículo de expressão das culturas letradas no país, que nem sempre paramos para refletir que os saberes de oralidade, que a grande maioria dos nossos alfabetizandos já detêm quando chegam à escola, é um capital simbólico de muita importância no processo de alfabetização da população brasileira. No entanto, como já vimos, a alfabetização em nosso país carece melhorar muito, tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo. Cabe então refletir sobre a forma como a escola brasileira pode fazer o melhor uso desse capital, ou seja, como a escola poderá apoiar-se na competência lingüística que os alunos possuem para tornar mais fácil e eficiente sua aprendizagem da língua escrita.

Agregando à nossa premissa que as chaves para o processo de alfabetização são a decodificação de palavras e a compreensão do código alfabético e considerando ainda mais que, para cumprir esses requisitos iniciais, é necessário que o leitor noviço se familiarize com o processamento fonológico das palavras, segue-se, como um corolário, que a aquisição da consciência fonológica tem de estar no fulcro da reflexão sobre os métodos de alfabetização adotados no país e sobre as teorias que lhes dão sustentação. Isso é tanto mais importante porque, no Brasil, convivemos com um paradoxo: os cursos de Letras, onde os alunos têm oportunidade de se familiarizar com o sistema fonológico do português, não costumam dedicar-se à formação de alfabetizadores; seus currículos são voltados para o ensino da língua no ciclo final do ensino fundamental e no ensino médio. Já o curso de Pedagogia, ou o curso Normal Superior assumem a responsabilidade da formação dos alfabetizadores, mas não incluem em seus currículos disciplinas de Lingüística descritiva que possam fornecer aos futuros alfabetizadores subsídios que lhes permitam desenvolver uma consciência lingüística ou, mais propriamente, uma consciência fonológica.

Ao refletir sobre consciência fonológica e aprendizagem da leitura e da escrita neste texto, podemos começar fazendo distinção entre fonologia segmental e supra-segmental. [8]

No capítulo da fonologia supra-segmental os fenômenos que parecem refletir-se mais diretamente no processo de alfabetização são a tonicidade e o ritmo. É ainda Mattoso Câmara (1970, p. 63) que nos ensina que o acento em português tem tanto a função distintiva quanto a delimitativa. As sílabas pretônicas são menos débeis que as pós-tônicas. Na pauta acentual pode-se conferir à sílaba tônica o grau 3, obtendo assim o seguinte esquema: ...(1) + 3 + (0) + (0) + (0). Numa seqüência de vocábulos sem pausa, ou grupo de força, as sílabas tônicas que precedem ao último vocábulo baixam a uma intensidade 2. Pode-se assim depreender o vocábulo fonológico pela presença de uma tonicidade 2 ou 3 e delimitá-lo no grupo de força pelo contraste entre 0 e 1. Morfemas gramaticais constituídos por partículas átonas, quando proclíticos a um vocábulo fonológico, têm status de sílabas pretônicas desse vocábulo, com marca acentual 1. Quando enclíticos têm status de sílabas pós-tônica com marca acentual 0. Essa pauta acentual vai ter duas conseqüências importantes na produção escrita dos alfabetizandos. Primeiro, eles manifestam uma forte tendência a aglutinar os vocábulos fonológicos no interior de um grupo de força ignorando a convenção que determina que haja espaços entre as unidades mórficas quando essas são formas livres. Mattoso Câmara mostra que a falta de coincidência entre o vocábulo fonológico e o vocábulo formal pode decorrer da adjunção de formas átonas a um vocábulo fonológico ou da justaposição de dois vocábulos fonológicos que vão constituir um só vocábulo formal composto. O primeiro caso reflete-se na escrita do alfabetizando como hipossegmentação. O segundo pode dar origem a hipersegmentação.

Outra conseqüência importante da pauta acentual decorre da alofonia das vogais médias /o/ e /e/ em posição átona. Quando pretônicas a realização dessas vogais médias constitui uma regra variável; quando pós-tônicas a elevação é praticamente categórica no português do Brasil. Para Anthony Naro (1971 p.637) a elevação das vogais médias finais no português tem uma teleologia acústico-articulatória que deve ter ocorrido independentemente em Portugal, no Brasil e em outras regiões lusófonas. Trata-se de fenômeno característico da posição pré-pausa, isto é, do decréscimo típico do conteúdo de energia das ondas acústicas que constituem o fluxo da fala, depois da última sílaba tônica num enunciado declarativo normal. Como as vogais mais altas são em geral mais fracas que as médias, a elevação nesse contexto é uma conseqüência natural da perda de energia. Sendo a elevação das vogais medias átonas finais produtiva em praticamente todos os falares no Brasil, entendemos por que os alfabetizandos tendem a grafar os fonemas /e/ e /o/ de valor acentual 1 ou 0 com as letras “i” e “u”, respectivamente.

Encontramos ainda relacionada à pauta acentual explicação para a dificuldade que tem os noviços produtores de texto para grafar o ditongo nasal /ãw/. De acordo com as convenções ortográficas, grafa-se esse ditongo como “ão” em sílabas tônicas e como “am” em sílabas átonas finais. A dificuldade que se apresenta para o alfabetizando é identificar as sílabas átonas e tônicas no vocábulo.

Voltemos agora à fonologia segmental para analisar os principais processos fonológicos que se podem identificar na escrita dos alfabetizandos. Comecemos por aqueles que parecem estar relacionados a dois universais fonológicos, quais sejam, a preferência pela sílaba canônica CV e a pouca resistência que os segmentos átonos oferecem à redução e à mudança. Os processos básicos que operam na língua com as sílabas CVC são a desnasalização das vogais átonas finais, a supressão de segmentos consonânticos como /s/ e /r/ na coda silábica, a neutralização do /l/ e do /u/ pós-vocálicos e a redução de ditongos decrescentes. Esses processos incidem com mais freqüência na sílaba final da palavra, que pode sofrer a perda de um segmento ou até mesmo ser totalmente suprimida, como acontece em algumas variedades, por exemplo: ”perto de São Paulo” > “per’de São Paulo”. Outras regras variáveis fonológicas, como a neutralização das líquidas em sílabas de padrão CCV, processos que afetam as consoantes palatais, nasal e líquida, assimilação das consoantes oclusivas em seqüências homorgânicas como –nd e –mb e a prótese e aférese do /a/ poderão receber também alguma atenção neste texto à medida que se mostrarem produtivas no corpus analisado.

A tendência à transformação das sílabas CVC em sílabas CV pode estar associada ao ritmo silábico prevalecente em muitas variedades do português brasileiro, principalmente quando o comparamos ao português europeu, que apresenta uma tendência a um ritmo acentual com proeminência das consoantes à custa da qualidade das vogais átonas. Foi provavelmente na transição entre os séculos XVII e XVIII que a língua em Portugal começou a adquirir um ritmo em allegro com relevância das sílabas tônicas (Silva Neto, 1950/1977 p.148; Mattoso Câmara, 1975 p.32). Essa tendência não se transferiu para o português brasileiro que, comparado ao europeu, mantém-se mais próximo a um ritmo com razoável isocronia silábica. Mas convém ponderar, com Abaurre-Gnerre (1981), que o ritmo silábico no português brasileiro pode variar muito em relação às variedades regionais e principalmente à formalidade dos estilos. Estilos coloquiais tendem a um ritmo mais rápido enquanto os estilos mais formais se manifestam em ritmo mais lento.

Ainda em relação à questão da predominância do ritmo silábico no português do Brasil, devemos considerar a tendência à redução das proparoxítonas, regra variável mais freqüente nas variedades rurais e rurbanas (cf. Bortoni-Ricardo 2002). Essa redução pode seguir diferentes padrões, dos quais o mais comum é a supressão da vogal átona da penúltima sílaba, como em: “chácara”> “chacra”. Se a supressão da referida vogal resultar em estrutura silábica estranha aos padrões fonológicos da língua, como em: “número” > “numro” ou “lâmpada” > “lampda”, as palavras podem sofrer mais um processo de redução. Veja-se: “numro” > “nữro” ou “lampda” > “lampa”. A redução pode ocorrer também com a supressão de uma vogal pretônica e da consoante seguinte, como em: “específico” > “especifo”; “depósito” > “deposo”. Há ainda a possibilidade da supressão de toda a sílaba átona final, como em: “quilômetro” > “quilomi” ou “legítimo” > “legiti”. Um processo mais raro, mas que também pode ocorrer, é a simples alteração da sílaba tônica sem mudanças segmentais: “incômodo” > “incomodo” (cf. Bortoni-Ricardo, 1985).

Nas contribuições que a sociolingüística variacionista liderada por William Labov tem feito à pedagogia do ensino da leitura e da escrita, enfatiza-se muito que os professores têm de aprender a fazer distinção, na leitura das crianças, entre problemas de decodificação, em geral, e a transferência para a leitura de regras fonológicas próprias do vernáculo da criança, especialmente no caso dos falantes da variedade afro-americana nos Estados Unidos (cf. Bortoni-Ricardo, 1997). Pesquisando as fontes dos problemas na leitura de crianças afro-americanas em escolas da Filadélfia, Labov et alii (1998) dão prioridade à análise da habilidade que os alunos demonstram no reconhecimento da correspondência som/letra, ao identificar palavras que fazem parte de sua competência para ouvir e falar. Grande parte de sua discussão recente vem focalizando os preditores do sucesso ou fracasso na leitura e o desenvolvimento da consciência fonêmica ou fonológica. Segundo esses autores a população de crianças afro-americanas tem maior dificuldade para desenvolver o processamento grafema-fonema que as crianças de outros grupos étnico-culturais. Os autores se propõem a verificar se, diante de qualquer letra, o leitor a reconhece como um fonema individual, como parte de um dígrafo que representa um fonema ou como parte de um grupo de fonemas que funcionam conjuntamente como início, núcleo e coda da sílaba. O objetivo de sua pesquisa é fornecer bases lingüísticas para o aperfeiçoamento dos métodos de alfabetização e ensino de leitura, enfatizando as necessidades específicas do grupo étnico estudado. Os autores recomendam que mais tempo seja dedicado à “rima”, i.e. às vogais e consoantes que se seguem à consoante inicial da sílaba, e também às consoantes que fecham sílabas, particularmente, ao final de palavras. Esse é um contexto sujeito a muita variação no vernáculo dos alunos. Ainda baseados na fonologia desse vernáculo recomendam que, juntamente com as sílabas CVC, que predominam nas lições iniciais da fônica, seja introduzido o padrão CVCe. Por exemplo, não basta que o alfabetizando saiba que hop é /hap/. É preciso que ele saiba também que hope não pode ser /hap/. Dígrafos vocálicos como “oa” e “ai” têm de ser trabalhados bem ao inicio do processo de alfabetização para que contrastes entre cot e coat ,rod e road, mad e maid sejam bem assimilados. Como estratégias gerais enfatizam que é preciso aumentar a percepção da estrutura das palavras tão logo os alfabetizandos atinjam a fase de reconhecimento da letra. Isso pode ser feito de forma consistente por meio de um trabalho pedagógico implícito ou explícito da fônica. O reconhecimento da consoante simples no início de sílaba parece estar sendo bem sucedido, ainda que tenham sido relatados erros relacionados à identificação da consoante inicial. Por exemplo, a palavra “ceiling” lida “killing”, o que demonstrou a incapacidade do leitor de aplicar a regra da pronúncia do “c” como /s/ antes de “e” ou “i”. O fonema /r/ pós-vocálico, que tem status variável na pronúncia dos afro-americanos em Filadélfia, representou um verdadeiro bloqueio na leitura. Também os elementos flexionais, como o morfema de plural – s, o possessivo – s, a terceira pessoa do singular - s do indicativo presente, o comparativo – er e o superlativo – est, o morfema regular de passado – ed e o do particípio presente – ing, todos eles em processo de variação no vernáculo, receberam atenção especial na observação da leitura dos alunos e se constatou que a incidência de erros em palavras com essas flexões é muito alta quando comparada à leitura de palavras monomorfêmicas. Os alunos não pronunciavam os morfemas flexionais nem tampouco processavam a informação semântica que eles representam.

Convém observar aqui que o sistema ortográfico do inglês (Stubbs, 1980) está muito mais distanciado da pronúncia contemporânea da língua que no caso do português. Isso torna a ênfase na relação fonema-grafema conferida pelos métodos fônicos especialmente importante. O que o grupo de pesquisadores da Filadélfia está propondo é que, além do trabalho regular já desenvolvido nas escolas de acordo com esses métodos, na identificação da relação fonema-grafema, seja dada atenção também a regras variáveis fonológicas produtivas em algumas variedades do inglês, como no vernáculo afro-americano, cuja sistematicidade os professores alfabetizadores geralmente não conhecem.

O mesmo vale para o processo de alfabetização no Brasil. Mesmo considerando que a grafia do português, diferentemente da grafia do inglês, tem um forte apelo fonêmico, como observou Mattoso Câmara (1977), a introdução de informações referentes à variação fonológica no horizonte dos alfabetizadores é muito importante porque grande parte das dificuldades que os nossos alunos vão apresentar na leitura e na escrita está justamente relacionada a esse componente variável da fonologia.[9]

É dentro dessa ótica que se situa o presente artigo. Não temos ainda dados de leitura no início de escolarização, mas vamos ilustrar essa questão com a produção escrita de alunos das séries iniciais, inclusive alunos da educação de jovens e adultos (EJA). Para alguns dos textos que selecionamos incluímos uma breve análise, outros foram apenas transcritos para que o leitor perceba quais são os problemas mais produtivos na escrita dos alfabetizandos, que tendem a se repetir ao longo das séries iniciais, bem como identifique problemas de hipercorreção que aparecem com mais freqüência na produção escrita de alunos nas séries mais adiantadas ou dos alunos de EJA. Nas breves análises que incluímos, procuramos fazer uma distinção entre características da escrita que se associam a regras variáveis na pronúncia e outras que podemos atribuir simplesmente ao caráter arbitrário das convenções ortográficas. Temos de ressalvar também que por ora a análise se circunscreve à dimensão ortográfica dos textos, que poderão merecer tratamentos posteriores que contemplem os demais componentes da textualidade. [10]

Delmara, 06 anos, 1ª série.

“Agua

a agua é quente

a agua é morna

Jesus é lindo

A fer e cherosa”
A criança constrói o texto justapondo períodos simples, mas já demonstra ter domínio sobre convenções ortográficas, exceto a acentuação da palavra “água” e a grafia da palavra “flor” (fer). Em “cherosa” reduziu o ditongo /ei/ refletindo a pronúncia da palavra. O contexto (segmento seguinte /r/) favorece a monotongação. Mota (1988) em sua pesquisa em Sergipe considerou que /ei/ e /e/ estão em variação livre e ressaltou que a vibrante alveolar como segmento seguinte é altamente favorecedora da monotongação. Bisol (1989 e 1994) observa que alternância entre o ditongo e a vogal simples não acarreta alteração semântica e aponta contextos em que isto ocorre: antes de consoante palatal e antes de vibrante. Nesses contextos a autora considera o ditongo como falso ou fonético. Paiva (1996), que estudou a supressão das semivogais /y/ e /w/ em ditongos decrescente no corpus do PEUL, relata casos da aplicação da regra na passagem do latim para as línguas românicas; mostra que o ditongo /ow/ em final de palavra é categoricamente reduzido. E considera a monotongação quase categórica sempre que o segmento seguinte compartilha um número grande de propriedades com a semivogal. Mostra ainda que a extensão da palavra favorece a supressão da semivogal, que também cai com mais freqüência em sufixos como em – eiro.

Danielle, 06 anos, terceiro período do ciclo de alfabetização.

Machocei o meu pezinho.

A cobra me picol.

Minha mão quebrol.

O limão é bom

Eu subi no pesinho de limão.

O texto é constituído de períodos simples justapostos. Quanto às convenções ortográficas, a menina ainda não tem um perfeito domínio da representação do fonema /k/. Usou com propriedade a letra “c” para representá-lo em “cobra” e “picol”. Usou o dígrafo /qu/ em “quebrol”, mas não o empregou em “machocei”. Nesta última palavra o emprego da letra “o” na sílaba pretônica pode ser uma evidência de hipercorreção, pois este é um ambiente em que a vogal /o/ é normalmente pronunciada /u/. O morfema de terceira pessoa do singular do perfeito do indicativo, representado pelo ditongo decrescente /ow/ foi nas duas instâncias grafado “ol”, o que reflete a neutralização dos fonemas /u/ e /l/ em posição final de sílaba, praticamente uma regra categórica em quase todo o território brasileiro (cf. Scliar-Cabral 2003). O fonema /z/ foi representado na mesma palavra pelas letras “z” e “s”.

Vítor, 06 anos

Eu gostaria di gãia ú biqdo de pista di carĩo.
Neste texto há que se observar a influência de uma regra variável muito produtiva na região Centro-Oeste __ a despalatalização da consoante nasal palatal / nh/, preservando-se o traço [+ nasal] na vogal anterior. Nas seqüências “di gãia” e “ú biqdo” temos vocábulos fonológicos no interior de grupos de força ( Mattoso Câmara, 1970). Nesse contexto, as vogais /o/ e /e/ das sílabas iniciais, de fraca tonicidade, são pronunciadas /u/ e /i/ respectivamente. Esta é praticamente uma regra categórica no português do Brasil (cf. Bisol 1981 inter alia). Outra regra fonológica variável que o texto revela é a supressão do /r/ final, morfema de infinitivo.

O menino Vítor ainda não se apropriou de muitas convenções ortográficas: o emprego das letras “m” e “n” para indicar a nasalidade da vogal como em “ú”(um) e biqdo (brinquedo), nesta última palavra também não soube grafar a sílaba complexa “brin”, nem o dígrafo /qu/. Ele também não aprendeu a empregar o dígrafo “rr”.

Paula, 06 anos

Neste nataueuqero gãia uma boneca nicole d prezĕte di natau nãu presiza ébrulia
Observa-se a influência da neutralização dos fonemas /u/ e /l/ em sílaba final; a despalatalização da consoante nasal palatal /nh/ e a perda do /r/ no infinitivo verbal. No grupo de força inicial aglutinou o vocábulo fonológico “ eu quero”. Além desses a menina demonstra outros problemas na transcrição ortográfica de grupos de força. Em “d prezĕte” e “di natau” ora grafa a preposição, que se adjunge ao vocábulo seguinte, adquirindo status de sílaba pretônica como “d” e ora como “di”. Precisa ainda adquirir familiaridade com o dígrafo “qu” e com as convenções da grafia das vogais e ditongos nasais. O fonema / λ /, que se neutraliza com a seqüência /lia/, foi grafado “lia” (cf. Lemle 1987).

Aluna de 7 anos, 1ª série

A buneka qeu qero e muitograndi e cuazi du meu tamãio papai noeu seraqivose podi mi da eça buneca di prezeti

Esta aluna, de 7 anos, ainda não aprendeu a usar a letra “c”, diante de “a”, “o” e “u” para representar o fonema /k/, nem o dígrafo “qu”, que também representa esse fonema. No grupo de força [a boneca] usou a letra “u” na sílaba inicial, de fraca tonicidade, refletindo a regra de elevação do /o/ para /u/ em sílabas pretônicas. O grupo de força [muito grande] foi aglutinado e a vogal /e/ final, pronunciada /i/, foi grafada com a letra “i”. O mesmo ocorreu na palavra “quase”, grafada “cuazi”. Nesse mesmo grupo de força, a aluna usou corretamente a letra “o” em “muito”, que é pronunciada /u/, mas representou o /e/ como o pronuncia. É interessante notar que a palavra “tamanho” foi escrita como é pronunciada, com a perda da consoante nasal palatal, representada na escrita pelo dígrafo “nh”. Em muitas regiões do nosso país esse fonema, é suprimido, como em “banho” e “venha”, restando apenas a nasalização da vogal anterior. Também a palavra “Noel” foi escrita conforme é pronunciada. O grupo de força [será que você] foi aglutinado e o fonema /s/, que na palavra “você” é representado pela letra “c”, por uma questão de convenção da ortografia, foi representado pela letra “s”. Na palavra “essa”, a representação do fonema /s/ é convencionalmente feita pelo dígrafo “ss”. A aluna ainda não tem domínio das convenções que regem a grafia desse fonema. Ela não aglutinou o grupo de força [pode me dar], mas grafou o /e/ das sílabas átonas como o pronuncia e também se esqueceu de recuperar na escrita o /r/ do infinitivo verbal que, na pronúncia, é geralmente suprimido. No grupo de força [de presente] as ocorrências de /e/ em sílaba átona foram grafadas “i”. Constata-se ainda que a aluna não conhece as convenções ortográficas que marcam a nasalidade das vogais. Por isso omitiu a letra “n” na palavra “presente”, que escreveu com a letra “z”.

Gabriela 1ª série

A mia muxila e da babi ela e roza eutabei gaie istogo di coloca lapis boraxa i canetia a itabei uapotado
Criança com 7 anos

Minha férias

Eu fui ao cinema foi muito legal depois agente fomos ao Mcidonaudis e depois eu fui pra casa, la em casa eu briquei no vidiogueme.
Mateus Pereira Sousa, 08 anos, 3ª série de transição.

“ O macaco que não tinha mãe

O macaco estava paseando na floresta e ois caçadores queria mata mais era proibido mata macaco quando estava de noite eles foram mata os macaco. mais a polícia pegou eles e o ladrão foi preso i eles achou uma faca de cortar ferro e quebrou o cadiado e fojiu, pegou o carro da polícia e foram para japão e os polícia do japão viu a cara do homem e prendeu ele e nunca mais de saiu de lar.”
Hemily, 3ª série

Eu emtendi que as pessouas tem que aseitar como nos somos e não tentar mudar para os outro cada um tem seu jeto de ser não emporta se seja feia ou bonito branca e preta emporta que se ama

Tem que ter amor do coração ninguem precisa tomar posão para ficar bonito porque todos tem alguem bonito por detro nos temos o direito de aceitar as pesouas como elas são por dentro ou por fora não importa mas não podemos matratar as pesouas porque são diferente da gente e nem criticar desemdo de que e feio e chingando porque e feio maltratar os outros porque nigem naceu para ser chingado todos tem que se tratado bem
          Fim

Larissa , 3ª série

A Dama e o Vagabundo

Dama e Vagabundo estavão ouvindo uma linda musica tocada por tony e comendo um delisioso macarrão o melhor macarrão do mundo.

Dama e Vagabundo estavão indo para casa. Vagabundo olhava Dama com muita alegria Vagabundo estava feliz por estar com Dama sozinho.

Quando Dama chegou em casa seu donos tinão acabado de sair para viajar.

Quem ficou com o bebe foi a tia Sara. Quando tia Sara descobriu que Dama tinha fugido acorentou Dama e deichou ela presa.

A noite dama viu um enorme rato sobindo na janela do quarto aberta o quarto era do bebe. Dama comesou a latir latir.

Vagabundo chevou a casa de Dama para ver o que esva acontesendo. Vagabundo chegou. Dama estava desesperada.

Vagabundo subiu bela a parede e quase comeu o rato tia Sara não giu o rato e cupou Vagabundo pela a bagunça entera e mandou a carrosinha prendela.

Dama ficou muito triste. Derrepente chegou os donos de Dama.

Dama tentou sauvar Vagabundo e com um pouco de esforso conseguiu.

Passaram-se muito tempo Dama teve mais ou menos 8 filhotes.

Dama tinha que mudar de sua família humana e sua familha canina e viveram felizes para sempre.

Rafaela, 10 anos, 4ª série

Paz na natureza

“ No mundo está acontecendo muitos casos de morte, em São Paulo 1.500 pessoas morreram por calsa de dengue, aedes, cancer, ásma e também casos deferentes comos os que eu falei”.

Na minha opinião eu acho que deveriam tem mais um pouco de cosideraçao, amor, carinho, união, e tudo mais bonito, e etc.

Nós podiamos fazer para acabar com isso, dado enxemplos, conselhos e ajudando fazer o serto e não fazer o mal sempre fazer o bem pense o que você faz e que não faz preste atenção não erre seja sempre o feliz unido e amoroso.
Maria 62 anos

Tema hoje e sobre o dia do índio

O indo perdeu toda sua liberdade, eles são muito discrimimado pelo nossas

O povo não dar nenhuma inportancia pela cultura idigina.

Eles devem ser respeitados no seu habitar que são as matas e os rios. Hoje ele são afrontados por fazendeiros, que tomaram suas terras.

E matam seu povo com se eles não fosse gente.

O índio deve ser respeitado como ser humano e não ser escarraçados de suas terras como agente ver hoje eles sendo espancardo.
Abstract

This paper focuses on the development of phonological awareness as a requisite for any method of literacy teaching. My contention is that phonological variable rules should be inserted onto this process of consciousness raising.

Key words: Phonological awareness; Literacy methods; Graphemic-phonemic analysis ; The Alphabetic principle; Written texts of novice writers

Referências
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[1] O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que acontece desde 1990, teve nova estrutura definida em 2005. Agora o Saeb é composto por dois processos de avaliação distintos: a Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb), que é sistêmica e é aplicada em amostra aleatória de estudantes, e a Avaliação Nacional do Rendimento Escolar (Anresc), mais extensa e detalhada, com foco em cada unidade escolar.

[2] Ver “Consciência fonológica” em Letra A - O jornal do alfabetizador do Ceale/UFMG, julho de 2005, ano 1- nº. 2 pág. 13.

[3] Aos métodos de alfabetização voltados para a decodificação da palavra com base na consciência fonológica opõem-se métodos conhecidos nos países de língua inglesa como “Whole language”, que partem da premissa de que a leitura é um processo natural, como a fala. Todo o trabalho de alfabetização é feito com textos, especialmente textos espontâneos produzidos pelos alfabetizandos. Segundo esse paradigma o contexto fornece pistas funcionais que permitem ao aprendiz ‘adivinhar’ cada palavra. Esses métodos têm a grande vantagem de valorizar o papel do contexto, pois as palavras, vocalizadas ou escritas, ocorrem sempre inseridas em um contexto significativo, já que a comunicação humana não se dá por meio de palavras isoladas. Trouxeram também uma grande contribuição ao enfatizar as estratégias heurísticas que os aprendizes desenvolvem quando começam a escrever e a ler. No entanto, têm uma fragilidade: na medida em que enfatizam a capacidade do leitor de ‘adivinhar’ a palavra, pelo apoio contextual, dão pouca ênfase ao ensino explícito da relação entre fonemas e grafemas, que facilita a decodificação (e posteriormente a codificação) de palavras. Para uma discussão mais detalhada da polêmica entre os dois paradigmas de alfabetização, ver Chall, 1967.

[4] (Para uma crítica a esses métodos, veja-se o influente livro de Cagliari (1999), Alfabetizando sem a Bá-Bé-Bi-Bó-Bu).

[5] Na discussão já tradicional sobre métodos de alfabetização são identificados dois tipos de métodos, os analíticos, também denominados métodos de cima para baixo, que partem do texto para as unidades menores, e os sintéticos, cuja lógica segue um procedimento de baixo para cima: das unidades menores, como a relação fonema – grafema para as maiores. Para uma revisão sobre métodos de alfabetização, ver Magalhães 2005.

[6] Recentemente a imprensa anunciou que o MEC está estudando uma revisão dos parâmetros curriculares para a alfabetização com vistas a enfatizar as relações fonema-grafema, conforme preconiza o método fônico. Em 18 de fevereiro de 2006, a Folha de São Paulo, na seção “tendências/debates” trouxe dois ensaios sobre a questão. No primeiro Telma Weisz defende um método global, em que os alfabetizandos são levados a mergulhar no mundo da cultura escrita. No segundo João Batista Araújo e Oliveira faz a defesa de métodos fônicos e associa o processo de alfabetização ao domínio do código alfabético.

[7] Para os brasileiros cujas línguas maternas não sejam o Português, como é o caso das etnias indígenas, a constituição brasileira garante o direito a uma educação bilíngüe.

[8] Segundo David Crystal (1985 p. 272) a fonologia segmental analisa a fala em unidades distintivas, ou fonemas, que têm uma razoável correspondência com os segmentos fonéticos. A fonologia supra-segmental analisa os traços que incidem sobre mais de um segmento, como entoação e harmonia vocálica. Em Mattoso Câmara encontramos a distinção entre os dois conceitos no verbete “prosódia” (1978 p.202). Para o grande lingüista brasileiro, a prosódia “é a parte da fonologia referente aos caracteres da emissão vocal que se acrescentam à articulação propriamente dita dos sons da fala, como em português o acento e a entoação”. Observa ainda, em outra obra (1977 p.43), que em português a sistematização ortográfica de Gonçalves Viana foi especialmente sensível ao apelo fonêmico.

[9] Mollica (2003) vem construindo exercícios e atividades pedagógicas com o objetivo precípuo de desenvolver com alunos e professores a percepção da variação lingüística. Também o grupo de Sociolingüística liderado por Dermeval da Hora, em João Pessoa ( Hora, 2004), tem trabalhado com regras variáveis em suas propostas para o ensino da leitura e da escrita nas séries iniciais.

[10] Os textos foram recolhidos por alunos de graduação na disciplina Processo de Alfabetização e por alunos de Pós-Graduação na Faculdade de Educação na Universidade de Brasília.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Processos matemáticos

Veja que texto legal sobre processos matemáticos...
Com certeza se aplica a todas as séries, melhor ainda, para todos nós.
O texto está no Português de Portugal.



Processos Matemáticos
Menezes, L. (2007). Processos Matemáticos (Seminário Final do P.F.C.M. Guarda)
Ponte, J.P. e Serrazina, L. (2000). Didáctica da Matemática do 1.º Ciclo. Lisboa: Universidade Aberta

O processo ensino/aprendizagem da Matemática caracteriza-se não só pelos conceitos matemáticos trabalhados como também pelos processos que essa aprendizagem envolve. Os processos matemáticos são tudo aquilo que permite trabalhar com esses conceitos. São particularmente importantes os processos matemáticos de representar, relacionar e operar, resolver problemas e investigar e comunicar. É igualmente importante que o professor discuta com os alunos os processos mais adequados à realização de cada tarefa.


Representar

A representação é um processo de grande importância numa aula de Matemática. Os conceitos matemáticos são por natureza abstractos (número, grandeza, medida, operação,…) e portanto surge a necessidade de os representar. Esse processo pode assumir diversas formas:

- Linguagem oral e escrita

- Representações simbólicas (algarismos, sinais das operações, sinal de igual,…)

- Representações icónicas (figuras, gráficos, diagramas,…)

- Representações activas (objectos para representar entes matemáticos)

É através das representações que o professor toma conhecimento do modo de pensar dos alunos, e a partir daqui pode aprofundar as representações dos alunos de modo a ir de encontro às representações da Matemática, assim como planear o seu trabalho de forma a responder às necessidades de cada aluno. Os alunos podem usar diferentes representações para o mesmo conceito; devem, no entanto, decidir qual a mais adequada em determinada situação. Só assim as aprendizagens se podem tornar significativas para os alunos.

Relacionar e operar

Para relacionar e operar com conceitos recorre-se a outros processos como: calcular (transformar certos símbolos noutros símbolos de acordo com determinadas regras), generalizar (atribuir a um conjunto de objectos as propriedades de um determinado objecto), particularizar (considerar casos concretos) e interpretar (relacionar os conceitos matemáticos ou suas representações de modo a dar sentido a esses conceitos e ideias matemáticas).

Resolução de problemas

A resolução de problemas é outro processo de extrema importância na aprendizagem da Matemática e que merece um lugar de destaque em todos os programas, porque permite desenvolver nos alunos novas ideias matemáticas e estratégias de pensamento. A resolução de problemas recorre a processos mais simples de representar e relacionar, dado que é um processo de elevado nível de complexidade. Na verdade, diz-se que um aluno está perante um problema quando não tem nenhuma rotina nem algoritmos de aplicação imediata para encontrar a solução que procura.

Investigar

A investigação, tal como a resolução de problemas, é um processo de enorme importância na actividade Matemática. Uma investigação distingue-se de um problema por ser um processo mais aberto e mais longo e com uma formulação de partida menos definida. Mostra-se, de seguida, um quadro com as etapas características da resolução de problemas e das investigações.



RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS                                      INVESTIGAÇÕES

                                                                                               Formular o problema/questão

Compreender o enunciado                                                       Desenvolver a compreensão sobre a questão

Definir um estratégia                                                                Formular conjecturas

Aplicar a estratégia                                                                  Testar e reformular as conjecturas

Avaliar os resultados e responder ao problema                         Validar a conjectura e relatar o processo.



Exemplos de investigações:

• Investiga as diagonais de polígonos convexos.

• Investiga o que acontece com o volume de um cubo quando se aumenta a medida do comprimento da sua aresta.

Comunicação

Tal como a resolução de problemas, a comunicação é um processo transversal ao ensino e à aprendizagem da Matemática. É através desta que os alunos expressam as suas ideias (intercomunicação) e alargam e aprofundam o seu conhecimento matemático (intracomunicação). Quando um aluno tenta convencer o outro do seu resultado é “obrigado” a justificar/argumentar, a organizar e consolidar o seu pensamento. Por outro lado, o professor apercebe-se do modo de pensar do aluno, dos seus erros, das suas dificuldades e, consequentemente, pode organizar o seu trabalho de modo a responder às necessidades de cada aluno.

Outros processos

Para além dos processos acabados de referir existem outros também importantes como por exemplo, deduzir (concluir sobre a veracidade de uma afirmação a partir de outras), modelar (construir e validar modelos matemáticos que possam representar fenómenos ou situações diversas), reflectir (quando um aluno considera uma ideia, um resultado e o encara de diversos pontos de vista), criticar (quando o aluno procura acerca da veracidade de uma afirmação, resultado ou método) e avaliar (a avaliação diz respeito à recolha de informação com o objectivo de tomar alguma decisão).


A actividade matemática centrada nos conteúdos, sem os processos, é inerte e sem sentido.


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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nova escrita... Velhos problemas


Michelle Bento

A cada ano, milhares de universitários brasileiros criam a expectativa de conseguir um estágio na área profissional que escolheram, e assim, se inserirem no mercado de trabalho e ganharem experiência prática daquilo que aprendem nas instituições de ensino superior. Eles se dedicam para tirar boas notas, se empenham para identificar o segmento no qual o seu perfil se encaixa melhor e, finalmente, iniciam a procura por uma oportunidade. Porém, muitos encontram, durante este processo, um obstáculo que, em tese, não deveriam ter: a Língua Portuguesa. Um levantamento feito pelo Centro de Integração Empresa-Escola do Rio de Janeiro (CIEE/Rio), a partir de provas de seleção para estágios, traz um retrato nada animador. Dos candidatos que participam de processos seletivos para estágio, cerca de 25% são eliminados na prova de Português, composta por questões de gramática e de uma Redação.

Com isto, nem sequer chegam a participar de entrevistas com o departamento de Relações Humanas das empresas, onde podem mostrar as competências comportamentais e a qualidade da formação técnica que têm.

De acordo com o presidente do CIEE/Rio e membro da Academia Brasileira de Letras (ABI), professor Arnaldo Niskier, a dificuldade destes jovens no uso da escrita decorre da falta do hábito da leitura durante a fase de formação.

"Prevejo um futuro ainda mais tenebroso com a inovação do livro digital, pois este será um privilégio para poucos e que poderá trazer prejuízos brutais à educação dos jovens universitários. Não podemos abandonar a mídia impressa sem ganhar a mídia eletrônica, porque ainda não se tem massa critica para dizer que isso será melhor para formação do jovem", explica.

Outro aspecto identificado em textos produzidos por universitários é a utilização frequente de termos típicos da linguagem da internet, mesmo quando a situação exige um tratamento mais formal do vocabulário e da construção de frases. O educador esclarece que o 'internetês', como este fenômeno é chamado, é resultado de um apelo dos estudantes para o conteúdo da internet, no lugar de outras fontes, como bibliotecas. "A falta de convívio com a norma culta da Língua Portuguesa é um fenômeno claro de deseducação. O universo virtual não é a oitava maravilha do mundo e não tem o papel de resolver todos os males", diz Niskier, ressaltando que uma das causas pode ser o hábito de muitos estudantes de copiar trabalhos originais da rede. "Esta é uma atitude nada criativa e desonesta, que muitas vezes, é pouco repreendida pelas universidades. A consequência disso, é que o indivíduo se forma despreparado e não consegue uma boa colocação no mercado."

Para especialista, estudantes não valorizam o bom uso do idioma - Apesar da deficiência, a Língua Portuguesa ainda não é disciplina obrigatória em todas as universidades do Brasil, o que segundo o presidente, dá margem a erros graves por profissionais que têm o Português como ferramenta principal de trabalho. "Temos que defender a ideia da Unesco de incluir uma formação continuada para que, até os que se formaram, voltem aos bancos universitários e tenham chance de aprender o que significa a língua para a cultura", declara Niskier. Para o especialista em Língua Portuguesa, Sérgio Nogueira, esta dificuldade do estudante está diretamente associada à deficiência que ele tem de visualizar as necessidades que ele terá na vida profissional, o que acaba por impedi-lo de valorizar e dar maior atenção a habilidades que ele com certeza irá precisar, como a escrita e a leitura.

"Da mesma forma que o cidadão aprende quando se deve usar terno e gravada e quando lhe é apropriado usar bermuda e chinelo de dedo, ele deveria aprender quando é que não pode usar gíria, quando não pode usar internetês e quando é que deve usar uma linguagem formal. Mas eu vejo tanto a escola como a universidade falhando ao passar isso ao aluno. Muitas vezes, é na vida profissional que as pessoas acabam tendo de aprender isto", atenta.

E para quem pensa que ter um Português em ordem é importante somente para profissionais das áreas de Educação ou Comunicação, o educador revela que a realidade atual é mais exigente do que se imagina. Em todas as profissões, é preciso escrever bem. Não só pela necessidade de fazer relatórios, mas, sobretudo, porque a comunicação escrita é cada vez mais comum nos ambientes e trabalho. "Aqueles problemas que o funcionário podia resolver por telefone, agora são solucionados por e-mail. E, para isso, é necessário saber escrever de forma clara para o entendimento daquele que vai receber. A escrita vai ser usada para o resto da vida deste profissional e, se ele vai escrever em papel ou pela internet, isso não muda nada", frisa Sérgio.

Redação é a parte mais problemática - Com 46 anos de existência, o CIEE/Rio busca intermediar o acesso dos universitários ao mercado de trabalho, por meio da oferta de treinamento e da seleção de estudantes para ingressarem em empresas, e assim, terem uma visão prática da profissão. Nos últimos anos, porém, o centro tem constatado desempenho ruim destes alunos com a Língua Portuguesa.

Os dados registrados no último ano, em dois processos seletivos realizados para duas grandes companhias, confirmam esta queda de rendimento dos universitários. Para uma das empresas, foram convocados 809 candidatos para a seleção, sendo que 37% (309 inscritos) foram reprovados. Na seleção para outra empresa, os resultados foram ainda piores. Dos 324 que participaram da seleção, e 181 foram eliminados (55,5% do total). Com base em um balanço feito pelo supervisor de processos especiais do CIEE/Rio, Luiz Marinho, o maior problema dos universitários é a estruturação da Redação. Segundo ele, observa-se que o candidato possui informação, que é atualizado acerca dos acontecimentos e que tem contato com algum tipo de leitura. Porém, falta o domínio dos recursos essenciais no desenvolvimento de um texto. "O que mais aparece é redação com muita informação, mas que não é trabalhada devidamente. Então, eles dão pinceladas de informação e não conseguem desenvolver o conteúdo. Para quem lê, é difícil ter uma leitura linear, um entendimento do que o universitário quer dizer."

Erros mais comuns são de concordância e ortografia - Para Luiz Marinho, a origem desta deficiência está, sobretudo, no consumo de leitura pela internet. Segundo ele, tal hábito faz com que o estudante assimile este modo de escrita rápido e pouco embasado, e que acabe aplicando a prática às suas produções. "No mundo virtual, as informações que aparecem são curtas, não há um aprofundamento do conteúdo. Este tipo de leitura acaba viciando o jovem para que ele não consiga se desenvolver e elaborar um texto de um modo mais formal, como é exigido no ambiente de trabalho. Percebemos que isso acaba influenciando também a comunicação por e-mail, através do qual ele não consegue se expressar e fazer com que outra pessoa entenda uma solicitação que é feita", diz. Os erros cometidos são os mais variados. Porém, os constatados pelo CIEE/Rio com maior frequência são os de concordância verbal e ortografia, além da dificuldade de desenvolver o tema em um formato mais tradicional e compreensível para o leitor. "É importante saber registrar a ideia e reler a redação pelo menos umas duas vezes para ver se aquilo saiu da forma como planejou", orienta Marinho. Na opinião do superintendente do CIEE/Rio, Paulo Pimenta, esta dificuldade do jovem não é de hoje, mas da falta de incentivo à leitura ao longo dos anos. "O problema destes universitários é a ausência do hábito da leitura que ocorre desde a pré-escola. É preciso que haja uma sequência, não basta que o aluno seja apenas aprovado. É necessária uma verificação mais eficiente se esse aluno realmente aprendeu", fala.

Segundo Pimenta, atualmente do total de estagiários encaminhados pelo CIEE/Rio, 74% conseguem ser efetivado pelas empresas. Porém, a cobrança no mundo corporativo tem crescido. "As empresas estão cada vez mais exigentes. Elas estão dimensionadas a atender um determinado mercado, que cobra mais.

Por isso, o profissional de hoje, precisa ser o profissional do agora e do amanhã", frisa. Mais que encaminhar os estudantes ao meio empresarial, o Centro de Integração também se preocupa em desenvolver aqueles que ainda têm as suas habilidades limitadas, instruindo-os e capacitando-os por meio de cursos e treinamentos. "O foco do CIEE/Rio é não só fazer a inserção do jovem no mercado de estágio, mas também de desenvolvê-lo. Quando não aprovamos alguém em um processo seletivo, percebemos a deficiência e fazemos algo para que esse jovem, quando chamado pela segunda ou terceira vez, não passe pela mesma situação", completa.

* Folha Dirigida* 17 ago. 2010.

Colaboração: Site Stella Bortoni

Gente... que texto maravilhoso para nossa reflexão... nossas formações precisam urgentemente romper a linha das disciplinas e contextualizar de forma transdisciplinar a nossa lingua que percorre tudo o tempo todo. Saber escrever, saber se expressar, saber se fazer entender são processos fundamentais na vida de qualquer um de nós, ainda mais nós EDUCADORES...
O que você achou deste texto... que tal começar sua reflexão por aqui... Passe pelo site da Stella Bortoni, você encontrará muito material para melhorar sua formação e consequentemente sua prática.
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